Paloma Bosso: Bem-estar como um estado de equilíbrio entre a saúde física e mental de cada indivíduo

Paloma Bosso: Bem-estar como um estado de equilíbrio entre a saúde física e mental de cada indivíduo

Foto: Eto – Consultoria Comportamental e Bem-estar de Animais Silvestres

Com vasta experiência no Brasil e no exterior, Paloma Bosso é uma das maiores autoridades no país quando se trata de comportamento e bem-estar animal.

Assim como nós, ela é louca por pássaros e também tem uma ararajuba, o Maná!

Ela é médica veterinária, pós-graduada (lato sensu) em Manejo (in-situ e ex-situ) de Animais Silvestres pela PUC-MG e, atualmente, está fazendo seu mestrado no Laboratório de Bem-estar Animal (LABEA) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Trabalha desde 2003 com bem-estar de animais silvestres tanto em zoológicos quanto pets. Fundou em 2011 a Eto Consultoria Comportamental & Bem-estar em Animais Silvestres (www.eto.vet.br).

 

Ocupa a Diretoria Administrativa da Sociedade de Zoológicos do Brasil – SZB. A partir de setembro, torna-se a primeira diretora executiva da SZB.

 

É a ela que recorro quando tenho algum problema ou quando preciso discutir estratégias para lidar com o bem-estar e os comportamentos da Lorenza e do Giallo.

 

Mesmo lendo e estudando muito sobre estes assuntos, há muitos casos em que apenas alguém de fora é capaz de perceber se há algo de errado e como nossas atitudes influenciam determinados comportamentos. Contar com a experiência e a sensibilidade da Paloma nestas ocasiões é um enorme privilégio.

 

Em um gesto de grande generosidade, Paloma Bosso topou ser a primeira entrevistada do Loucos por Pássaros e o resultado desta conversa vocês conferem abaixo.

Você tem um trabalho reconhecido quando se trata de bem-estar animal. Poderia explicar o que é isto?

Acho importante definirmos o conceito de bem-estar animal para que as pessoas possam compreender melhor o assunto, já que o tema é cada vez mais atual. Além disso, é importante esclarecer que embora o conceito de bem-estar possa parecer algo complexo e relativamente abstrato, na prática ele é bem mais compreensível do que se imagina.

Em uma linguagem simples, podemos definir bem-estar como um estado de equilíbrio entre a saúde física e mental de cada indivíduo, incluindo aí os seres humanos também. Em outras palavras, equivale a dizer que o bem-estar de um animal compreende tanto a sua saúde física, quanto a sua saúde psicológica, mental.

Assim, se um destes aspectos não for cuidado, não se alcança um grau mínimo de bem-estar animal. Ter uma ótima saúde física sem cuidados mentais; ou do mesmo modo ter apenas uma mente saudável não implica em uma boa qualidade de vida. É preciso viver em um ambiente que permita um equilíbrio entre ambos.
Podemos dizer que não adianta então cuidar apenas da saúde física dos nossos pets, é preciso ir além oferecendo, por exemplo, estímulos mentais para eles. E não são só os animais de estimação que demandam estes tipos de cuidados. Diferentes espécies de animais, mantidas em diferentes ambientes, devem ser estimuladas mentalmente para que se promova um melhor grau de bem-estar a eles.

Como saber se estamos garantindo bem-estar às nossas aves de estimação?

O processo que consiste na promoção do bem-estar é contínuo. Por isso, costumo dizer que não “garantimos” a promoção do bem-estar. Na verdade devemos constantemente trabalhar para manter um grau aceitável de bem-estar a um determinado animal, por exemplo, ou ainda sempre que possível trabalhar para aumentá-lo.

Parece confuso, mas o que quero enfatizar é que não há como uma ação isolada garantir que um animal vá permanecer bem. É preciso observar para monitorar o comportamento animal e seguir atendendo as necessidades de cada indivíduo, nos diferentes estágios da sua vida, nos diferentes ambientes em que eles vivem.

Costumo dizer, enfim, que não há uma “receita de bolo” pois cada animal é diferente e está inserido num ambiente e contexto diferente, mas no geral podemos dizer que há grande chance de se promover bem-estar a um animal sempre que consideramos atender seus aspectos fisiológicos (ou seja, promovendo um bom funcionamento biológico através do oferecimento adequado de água e alimento em termos de frequência, quantidade e qualidade, por exemplo), assim como seus aspectos clínico veterinários (é fundamental que estes animais tenham um acompanhamento médico veterinário especializado para, não só garantir o tratamento de eventuais doenças, como prevenir o surgimento delas) e da mesma maneira é importante cuidar dos estímulos que atendam a demanda mental e comportamental destes animais.

Na sua opinião, qual a importância do voo para o bem-estar dos psitacídeos de estimação?

Eu, particularmente, considero o voo um comportamento muito importante para o bem-estar dos psitacídeos de estimação, mas lembro que devemos avaliar os casos individualmente pois não basta observar um animal com restrição de voo e automaticamente pressupor que seu bem-estar está comprometido.

É fundamental avaliar todo o contexto. Digo isso, pois como médica veterinária que atua na área de bem-estar e comportamento animal, penso que o corte das penas das asas, por exemplo, pode gerar uma certa frustração em um animal cujo corpo possui condições anatômicas e fisiológicas voltadas para este tipo de comportamento.

Restringir este tipo de comportamento, especialmente para um animal que já teve a possibilidade de fazê-lo, tende a comprometer o seu bem-estar. Por outro lado é fundamental que se garanta a segurança desta ave mantida para fins de estimação.

Assim, se manter a asa do animal íntegra pode acarretar em uma eventual fuga, é fundamental que esta condição seja evitada pois haveria também um comprometimento da qualidade de vida do animal caso ele fugisse de sua gaiola.

Assim, como nas demais ações de bem-estar, eu diria que cada caso deve ser avaliado individualmente para contribuir de modo global com uma melhor qualidade de vida para o indivíduo.

 O que é enriquecimento ambiental e qual a sua importância para o bem-estar das aves de estimação?

Foto: Paloma Lucin Bosso

A definição técnica de enriquecimento ambiental é tida como o oferecimento de estímulos ambientais que possam gerar desafios e imprevistos com os quais as diferentes espécies mantidas em cativeiro poderiam se deparar em vida livre.

A criação de um ambiente mais complexo e interativo tende a gerar nestes animais comportamentos mais naturais, pois nestas situações é oferecida ao animal a oportunidade de escolha. Em outras palavras eu poderia dizer que estamos oferecendo ao animal uma maior possibilidade de controle do ambiente em que ele vive, questão essa fundamental ao bem-estar animal.

Quando mantemos animais em cativeiro tendemos a tornar a vida destes indivíduos altamente previsível: determinamos o que eles comem, em qual quantidade, variedade e horário, por exemplo, e a repetição dessa rotina por toda uma vida tende a gerar um ambiente monótono e bastante diferente daquele no qual estas espécies evoluíram.

 

Assim, mais do que oferecer estímulos ambientais para os animais interagirem, é importante que se ofereça a opção de interagir ou não, pois é isso que lhe promoverá um maior grau de bem-estar. E estes estímulos podem ser amplamente variados, desde brinquedos até novas estruturas nos seus ambientes (como poleiros, cordas, vegetações…), diferentes modos de oferecimento do alimento etc.

É importante oferecer brinquedos para nossas aves?

Foto: Paloma Lucin Bosso

Não é só importante, mas eu diria fundamental! E mais do que isso, eu digo que não só oferecer é importante, mas também adotar uma frequência de substituição de brinquedos que permita a manutenção de um ambiente dinâmico.

 

Muitas pessoas oferecem os brinquedos aos seus animais e nunca mais mudam este ambiente. Geralmente estas mesmas pessoas costumam dizer que os animais interagiam no começo, mas depois perderam este estímulo. De fato é importante que se considere alguns aspectos para que este oferecimento seja eficaz.

No início os animais podem apresentar uma certa resistência e medo de objetos até então pouco desconhecidos. Neste caso, vale optar por itens de tamanhos menores. Uma vez que o animal já demonstre maior interesse por estes materiais, o grau de complexidade e tamanho pode ir aumentando gradualmente. Da mesma maneira estabelecer uma frequência de retirada e apresentação de itens tende a manter esta imprevisibilidade necessária.

O que é necessário observar ao escolher os brinquedos?

Há uma série de cuidados a se observar, o primeiro eu diria é quanto ao tipo de material utilizado. Neste quesito, a sugestão é: quanto mais natural, melhor. Evite tintas e elementos artificiais como plásticos, borrachas e guizos. Madeira, por sua vez, é uma excelente opção para estas espécies. Verifique porém o tipo de madeira usada no brinquedo e se ela não recebeu nenhum tipo de tratamento químico.

A quantidade de itens também é um fator importante a se considerar ainda mais quando temos mais de um animal dividindo o mesmo espaço. É fundamental oferecer os itens em quantidades que sejam em número igual ou superior ao número de indivíduos.

Quanto aos tipos de brinquedos, limite-se apenas aqueles que consistem em promover comportamentos naturais a espécie. Assim, por mais obvio que pareça é importante lembrar que os brinquedos devem ser próprios para aves.

Uma ideia muito simples e que tende a oferecer resultados satisfatórios em longo prazo consiste em promover o forrageio nos animais. Esta busca pela comida, que naturalmente deve acontecer em vida livre e ocupa cerca de 60% do tempo dos psitacídeos, é amplamente suprimida em cativeiro.

 

Sua empresa oferece consultoria comportamental para proprietários de psitacídeos. O que é uma consultoria comportamental?

 

A consultoria comportamental é uma novidade em termos de serviços veterinários. Emergiu com a demanda de proprietários de cães que começaram a buscar uma melhor forma de comunicação com os seus animais. Cientes da demanda mental que estes animais também apresentam, o número de interessados em compreender o comportamento dos seus animais e assim adotar uma forma de manejo que priorizava o seu bem-estar cresceu exponencialmente nos últimos anos.

 

A Eto entretanto foi a primeira empresa a oferecer este serviço médico veterinário voltado exclusivamente para o bem-estar de espécies silvestres.

 

A consultoria comportamental oferecida pela nossa equipe consiste em uma consulta médico veterinária, em domicílio, com duração mínima de 1 hora para verificação das condições comportamentais iniciais do animal, bem como detecção de possíveis condições que sejam fontes de estresse na rotina do animal. Nesta ocasião, o responsável pelo animal, recebe informações para tratar eventuais problemas comportamentais já existentes, bem como evitar o surgimento destes.

 

Como ela pode auxiliar os psitacídeos de estimação e uma melhor convivência deles com a família?

O serviço oferecido tem exatamente esta missão: estudar o comportamento do animal no ambiente familiar em que ele vive e propor eventuais medidas que permitam uma melhor convivência com os seus proprietários.

Desta forma, enfatizamos que não utilizamos medicamentos que possam alterar o comportamento natural do animal simplesmente para que ele atenda às necessidades humanas. A prioridade então é promover o bem-estar de modo integrado! O foco é no tratamento da causa de eventuais alterações comportamentais e não no impedimento da realização deste comportamento.

Em outras palavras podemos dizer que nossa ação geralmente consiste em propor mudanças na rotina desta convivência, priorizando comportamentos naturais dos animais. A este tipo de trabalho damos o nome de manejo etológico.

Quem deve procurar uma consultoria? A consultoria é útil apenas para quem tem animais com problemas comportamentais?

Excelente pergunta! Todos podem procurar a consultoria. Inclusive temos atendido cada vez mais pessoas que nos procuram antes mesmo de adquirir um animal silvestre que será mantido para fins de estimação.

Isso é muito bacana pois checar se os hábitos da espécie que você está comprando se adequam a sua rotina e ao seu ambiente familiar é fundamental para que estabeleça uma melhor interação entre animal-proprietário desde o início.

Este tipo de serviço não é somente útil para quem tem animais com alterações comportamentais. Animais que não tem problemas comportamentais podem ser atendidos de forma preventiva também.

Você já trabalhou com todos os tipos de animais, mas quando se trata de pets, parece que tem uma relação especial com os psitacídeos, não é? Como foi que isto começou? 

De fato já trabalhei e ainda trabalho com diversas espécies de animais silvestres, incluindo aves, mamíferos e répteis. E confesso que sou suspeita para dizer com qual delas tenho uma relação mais intensa, um carinho maior, mas de fato os psitacídeos são uma paixão na minha vida!

São animais muito especiais, com um repertório comportamental bem complexo e dotados de uma capacidade cognitiva muito grande…. encantadores!

Desde o início me senti motivada a conhecer, estudar e então tentar compreender melhor o comportamento deles para poder contribuir com uma melhora na qualidade de vida destas espécies, que me parecem altamente sensíveis as alterações ambientais.

Desde o criação da Eto, atendo variadas espécies de psitacídeos e cada nova observação que faço, seja ela de uma espécie ou de um único animal, me encanto ainda mais por eles.

Quais os principais erros que os proprietários de psitacídeos cometem em relação ao comportamento de suas aves?

Eu não diria erros, mas acredito que o desconhecimento ainda ocasiona falhas importantes no cuidados com estes animais.

Quem vai adquirir estes animais precisa conhecer técnica e antecipadamente as espécies e isso significa inclusive procurar um atendimento de aconselhamento veterinário prévio. Como diria o velho ditado, é melhor conhecer a situação antes de se deparar com ela. Isso tende a minimizar os problemas, pois permite a escolha de uma espécie que melhor se adeque ao perfil do proprietário.

Além disso, algo também bastante preocupante no trato com estes animais é a ausência de limites que muitas vezes se estabelece entre o animal e seu proprietário, bem como a antropomorfização destes animais.

Estes aspectos estão correlacionados e é fundamental que se esclareça algo aqui: não há problema algum se encantar, gostar ou mesmo amar um animal, como se ama uma pessoa, por exemplo. Porém este animal não pode ser tratado como um ser humano justamente porque isso não seria sinônimo de bem-estar para este indivíduo.

Criar um animal desconsiderando os comportamentos típicos daquela espécie não é a melhor forma de lhe proporcionar uma melhor qualidade de vida.

Considerando os principais problemas que você tem visto na casa das pessoas, que conselho(s) daria para alguém que pensa em adquirir um psitacídeo como animal de estimação?

Acho que o conselho é exatamente este que mencionei anteriormente: conhecer previamente os hábitos da espécie.

Na minha opinião evitar uma compra impulsiva é o melhor caminho para que se estabeleça uma relação de confiança e respeito entre o animal e seu proprietário.

Ao buscar informações prévias sobre os psitacídeos talvez as pessoas se conscientizem que maioria deles são monogâmicos (o que provavelmente implica na manutenção de mais de uma animal ou que você então terá que dedicar grande parte do seu tempo diário para dar atenção a este animal), que são animais de hábitos diurnos (e que portanto vão começar com suas atividades logo ao nascer do sol), que podem vocalizar mais alto que cães (e que talvez você e seus vizinhos não estejam dispostos a esse tipo de barulho), que eles tem uma alta longevidade (e que isso implica em você estar disposto a não só cuidar bem deste animal por toda a sua vida, bem como pensar na eventual possibilidade de alguém fazê-lo na sua ausência) e que tanto a aquisição quanto a manutenção deles implica em gastos muitas vezes tidos como altos por parte dos proprietários.

Se a pessoa resolver mesmo que está pronta para assumir a responsabilidade de cuidar de um psitacídeo por toda sua vida, o que é importante considerar  na escolha de uma espécie e na hora de adquirir?

Uma vez que se verifique que há condições de se manter uma boa qualidade de vida tanto para o animal quanto para a família que o abrigue, considerando este conceito de bem-estar compartilhado que mencionei anteriormente, é fundamental que o interessado procure locais devidamente autorizados para efetuar esta compra.

A legislação Brasileira permite a compra de algumas espécies de aves silvestres desde que oriundas de criadouros devidamente autorizados. Estes animais devem vir com algum tipo de marcação individual e acompanhados de suas respectivas notas fiscais.

A compra de animais silvestres oriundos do tráfico de animais silvestres é crime e tende a comprometer a qualidade de vida destes animais de modo definitivo. Há relatos constantes de maus-tratos a estes animais desde a sua captura, passando pela sua manutenção, até o momento da venda. Assim, comprar um animal silvestre proveniente de uma ação ilegal, ainda que por dó ou pena daquele único indivíduo, atinge propósitos contrários pois amplia as proporções desta atividade ilícita. Em outras palavras qualquer tipo de compra de animal obtido por meios ilegais contribui indiretamente para que os traficantes permaneçam com este tipo de comércio uma vez que há demanda para os produtos do tráfico.

******************

Encerro agradecendo a Paloma pela conversa super interessante. Imagino que vocês também tenham gostado bastante.

Não perca outras entrevistas como esta, assim como todas as atualizações do Blog. Inscreva-se já na nossa lista de e-mails! É simples, basta preencher os dados abaixo.




  • Saky Jess Uzuchiha

    Entrevista super interessante eu vou levar essas dicas para o resto da vida com meu novo amiguinho!

Seu papagaio mais comportado e feliz! Inscreva-se!

*preenchimento necessário

Curta nossa página no Facebook!

Lorenza mail

Inscreva-se na nossa lista!

Receba todas as nossas novidades diretamente no seu e-mail!

Inscrição concluída com sucesso!

Shares
Share This