Mitos e Verdades sobre o Corte de Asas

Mitos e Verdades sobre o Corte de Asas

Se você chegou até aqui, imagino que já tenha lido o post que introduziu esta conversa sobre voo. Se ainda não leu, basta clicar aqui para ler. Os esclarecimentos feitos lá, continuam valendo aqui também.

Reafirmo aqui que respeito a decisão de quem corta as asas de seus papagaios. Sei que o fazem porque se preocupam e entendem ser o melhor para sua segurança.

Nunca é demais lembrar, também, que manter aves que voam implica riscos e responsabilidades (assim como com aves de asas cortadas). Se decidir não cortar as asas do seu animal de estimação, certifique-se de tomar todas as medidas necessárias para aumentar a sua segurança e bem-estar. É sua responsabilidade cuidar para que acidentes não aconteçam.

Dentro do intuito de dar elementos para que as pessoas possam decidir melhor sobre o que fazer com suas aves, acho importante começar esta conversa enfrentando alguns “dogmas” do corte de asas.

Às vezes certas posturas e concepções se difundem de tal forma e por tanto tempo, que acabam sendo vistas como verdades absolutas, intocáveis e incontestáveis. A gente ouve estas ideias tantas vezes, em tantos lugares diferentes, e acaba incorporando-as sem pensar muito a respeito e passando pra frente.

A decisão de permitir que nossas aves voem esbarra em uma série de objeções deste tipo. Quando se fala sobre voo, é muito comum ouvir conselhos do tipo:

  • Cortar as asas é melhor para a segurança deles; ou, ainda,
  • Se você não cortar as asas, a ave vai acabar fugindo e aí não adianta chorar.

Há ainda algumas pessoas que gostariam de ter suas aves voando, mas imaginam que sejam necessárias algumas condições especiais, como ser um proprietário experiente, ter um viveiro grande ou uma ave super treinada.

Outras pessoas, contam histórias muito tristes de aves que estavam com as asas inteiras e acabaram se perdendo. Não consigo nem imaginar o quanto dói perder um animal tão querido. A gente deve fazer o possível para ajudar e acolher quem perde seus animais, mas não se pode tomar estes exemplos como evidência de que cortar as asas é melhor sem analisar as circunstâncias em que estes acidentes aconteceram. Dificilmente o fato de a ave voar foi o único fator determinante.

A informação é útil não apenas para quem decide não cortar as asas, porque mesmo com as asas cortadas é bom conhecer todas as implicações desta decisão. Me preocupa, por exemplo, que muitas pessoas imaginem que basta cortar as asas de seus papagaios para garantir sua segurança. Isto faz com que, inadvertidamente, exponham suas aves a riscos desnecessários.

Neste post, vamos comentar  algumas objeções que costumam aparecer quando se fala de voo ou corte de asas, de forma a esclarecer certos equívocos e chamar à atenção fatos que muitas vezes passam desapercebidos. Com estas informações, tenho certeza que você estará mais preparado para garantir a segurança das suas aves, voando ou com as asas cortadas.

1. Se você não cortar as asas, seu animal vai fugir.

Existe uma concepção equivocada de que, se a ave puder voar, ela vai querer fugir. “Depois vai chorar na cama que é lugar quente”, ouvi certa vez.

A verdade é que papagaios de qualquer espécie, nascidos em cativeiro e tratados com respeito adaptam-se às nossas casas e famílias tanto quanto nós nos adaptamos a eles.

Se a ave se sente segura e confortável com sua casa e com você, ela não tem motivo nenhum para fugir. Pelo contrário, ainda que um psitacídeo seja sempre um animal silvestre, o ambiente doméstico é único que uma ave nascida em cativeiro conhece.

Se sua ave não está acostumada a sair de casa, é provável que necessite de uma adaptação até mesmo para dar um passeio junto com você. Caso contrário, a rua irá parecer um ambiente extremamente hostil e estressante.

O Giallo e a Lorenza, mesmo estando acostumados a passear comigo no parque ou na rua, têm uma atitude muito diferente fora de casa, onde ficam mais quietinhos e muito grudados em mim. Eles gostam do passeio, observam tudo e todos, mas não tem nenhum impulso de voar pra longe ou ir embora.

Eventualmente, algo os assusta ou ficam muito curiosos com alguma coisa e eles voam. Por isso, só saem de casa de peitoral ou na gaiola de transporte.

Ela não queria fugir...

Ela não queria fugir…

Antes de chegar com a Lorenza em casa, eu imaginava se seria possível tirá-la do viveiro. Me perguntava constantemente como faria para pegá-la depois, mas logo percebi que não era nenhum desafio. Ela queria mesmo era ficar perto, no meu dedo, no meu braço, no ombro em cima da cabeça…

Meus animais nunca mostraram qualquer intenção de fugir pela janela. Se você tem um filho adolescente, é mais provável que ele esteja pensando em fugir do que o seu papagaio.

Em alguns anos convivendo com papagaios de estimação, dá pra contar nos dedos a quantidade de vezes que algum dos dois voou em direção à janela ou à porta. Nas poucas vezes em que isto aconteceu, foi porque se assustaram com alguma coisa e saíram voando descontroladamente.

O fato de que eles não demonstram qualquer intenção de fugir, não significa que eu posso descuidar. É plenamente possível que, em algum destes sustos ou por curiosidade, eles saiam voando pela porta ou pela janela. É aí que entra a parte da responsabilidade.

Curtinho um banho na varanda com toda a segurança!

Curtinho um banho na varanda com toda a segurança!

Se a ave está solta, a porta e as janelas devem estar fechadas. Parece uma afirmação óbvia, mas muita gente acaba não se dando conta disto, ou relaxando. Basta uma janela aberta, uma porta mal fechada para acontecer um acidente. Acredite, eles acontecem.

No primeiro verão com a Lorenza em casa, quase cozinhei de tanto calor. Eu queria deixá-la solta para brincar, mas, para isso, tinha que fechar todas as janelas. Era quase como uma sauna com um papagaio.

No verão seguinte, mandei telar a varanda inteira e todas as janelas. Mesmo assim, a gente ainda toma bastante cuidado com as janelas basculantes, que não puderam ser teladas.

Vale destacar que as telas servem apenas para evitar que ave saia se voar em direção à rua. Eu nunca deixo as minhas aves brincarem na tela ou ficarem na varanda sem observação. Uma bicada pode danificar a tela em poucos segundos e arriscar a segurança da sua ave.

2. Basta cortar corretamente as asas para garantir a segurança do animal

Um dos maiores equívocos sobre o corte de asas é imaginar que cortar as asas, por si, garante a segurança das aves. Há dois fatores que frequentemente acabam sendo negligenciados nesta equação, o primeiro deles é que mesmo com as asas cortadas, as aves ainda mantêm a capacidade de voar, ainda que muito limitada.

Em geral, o corte de asas não impede completamente o voo. E nem deve, pois a ave teria problemas em se equilibrar e, impedida até mesmo de planar, acabaria caindo e se machucando. Em tese, o corte impede que a ave ganhe altura e voe longas distâncias e isto é o que realmente acontece em 99% do tempo, principalmente em ambientes fechados.

As pessoas se descuidam porque confiam que suas aves estejam seguras, afinal não podem voar e, de repente, surpreendem-se com ela voando alto e longe, muitas vezes incapaz de voar de volta.

De peitoral é mais seguro.
Isto ocorre porque, geralmente, cortam-se as pontas das penas primárias das asas. Estas penas funcionam, principalmente, como propulsor do voo. Se fosse um avião, seriam as turbinas, não as asas. As penas secundárias são mantidas, permitindo à ave, geralmente, apenas planar por uma distância limitada.

Em ambientes externos, contudo, o vento pode acabar funcionando como propulsor e uma corrente ascendente levando a ave para o alto. A adrenalina de um susto pode fazê-la bater as asas com força suficiente para voar alto e longe. Uma ave sem muita experiência e habilidade com voo pode ter dificuldade para descer ou para voltar e a ave acaba se perdendo. Pode parecer teoria da conspiração, mas isto acontece muito mais do que a gente imagina.

Portanto, mesmo com as asas cortadas, o ideal seria utilizar o peitoral ou caixa de transporte.

O segundo ponto a ser observado é que o corte de asas sujeita a ave a riscos que ela não correria se voasse. Isto inclui:

  • maior suscetibilidade a predadores terrestres, como cães, gatos, ratos, cobras;
  • maior facilidade de captura por aves de rapina;
  • possibilidade de pisões ou esmagamento por objetos caídos;
  • maior possibilidade de afogamento em bacias, baldes, vasos, vasos sanitários, banheiras, etc.

3. Cortar as asas é melhor para a segurança das aves

Pelos fatores já expostos acima – e por outros de que falaremos nos próximos dias –, não é possível afirmar que a segurança das aves é maior com asas cortadas. Diminuem-se alguns riscos, é verdade, mas aumentam-se outros também.

Isto não significa que voar seja mais seguro. É importante ter em mente que em qualquer dos casos existem riscos a serem administrados e que, em qualquer hipótese, é nossa obrigação identificar os perigos e fazer o possível para evitá-los.

4. Você só pode ter aves que voam se tiver uma casa/viveiro/quarto construído especialmente para isto

Algumas pessoas gostariam de deixar as asas de suas aves crescer, mas imaginam que para isto necessitam de um espaço extraordinário destinado a isto. Não é verdade.

A possibilidade de voar dentro de casa mesmo já pode trazer muitos benefícios para sua ave.

5. É necessário cortar as asas para impedir que elas voem contra paredes ou janelas e se machuquem.

Este é um risco muito menor do que as pessoas imaginam.

Realmente, filhotes arriscando os primeiros voos podem ter alguma dificuldade inicial para controlar a velocidade e para parar. Isto controla-se facilmente mantendo os filhotes em recintos pequenos onde não haja espaço suficiente para acelerar demais.

Nesta fase, podem acontecer algumas trombadas, mas os ossos ainda são mais flexíveis e eles se machucam menos.

Uma vez que eles aprendem a controlar o voo e a identificar janelas, este tipo de acidente torna-se muito incomum. Eles conseguem perfeitamente evitar obstáculos.

6. É necessário cortar as asas para que o papagaio possa ficar o dia todo solto.

Isto não é necessariamente verdade. Mesmo com as asas cortadas, as aves precisam de supervisão constante. Quem convive com calopsitas, papagaios, araras, etc. sabe. Apesar da mobilidade reduzida, mais cedo ou mais tarde eles vão achar um jeito de se meter em encrenca. É natural que uma mente tão complexa fique logo entediada na falta de estímulos adequados.

Uma ave que voa, se cansar de um poleiro, pode voar para outro lugar e arrumar outra coisa para fazer. Com as asas cortadas, a ave depende de você para ir de um lugar para o outro. E se você não entender o que ela quer, provavelmente ela vai dar um jeito de chamar atenção. Nesta situação, é fácil para a ave entender que precisa gritar para conseguir o que quer e isto pode acabar se tornando um problema de comportamento. É indesejável uma ave que grite sempre que quer alguma coisa.

Ainda que a ave que voa fique menos tempo solta, isto não significa necessariamente menor bem-estar. O bem-estar pode, inclusive, ser maior, já que nos momentos em que estará solta, mesmo que por menos tempo, ela poderá praticar um comportamento natural. Ou seja, os momentos fora da gaiola podem ser de maior qualidade.

7. Aves com asas inteiras estão condenadas a viver trancadas em casa.

Pitanga na árvore é mais gostoso!

Pitanga na árvore é mais gostoso!

Algumas pessoas argumentam que é melhor cortar as asas para poder levar as aves para qualquer lugar, que assim elas tem mais oportunidades de socialização, de tomar Sol e de participar de atividades ao ar livre.

No entanto, não é verdade que aves que voam não podem sair de casa. É sim possível leva-las para todos os lugares usando gaiolas de transporte ou peitorais, precauções que, ademais, deveriam ser adotadas mesmo com as asas cortadas.

Usando o peitoral, levo o Giallo e a Lorenza para um monte de lugares comigo. Pequenas saídas a pé, pelo bairro, passeios mais longos no parque etc. Com a varanda telada, eles também podem sair para tomar um banho lá fora ou para tomar Sol.

8. Cortar as asas melhora o comportamento

Algumas pessoas defendem que o corte de asas tornaria as aves mais obedientes. Sem poder voar, elas dependem dos seres humanos para o transporte. Esta relação de dependência as tornaria mais comportadas.

No meu modo de ver, acontece justamente o contrário. O voo permite que a ave voe para longe sempre que não desejar determinada interação ou algo deixá-la insegura ou com medo. Não é porque o papagaio não pode fugir que ele passa a gostar destas interações. Diante de situações indesejadas, os psitacídeos têm um reflexo comumente chamado de voar ou lutar. Na maioria das vezes, eles escolherão voar, mas se você tirar esta alternativa deles, só restará lutar. Assim, eles aprendem a morder as pessoas para se defender. Este é um hábito que, uma vez aprendido, torna-se muito difícil de diminuir.

Por outro lado, a imobilidade também o impede de ir atrás das coisas que ele deseja, obrigando-o a chamar sua atenção para que você o leve até lá ou traga algo até ele. Não é difícil imaginar como isto gera problemas de barulho excessivo.

9. Aves que voam sujam a casa toda

Algumas pessoas pensam que aves que voam fazem suas necessidades por todos os lados. Na verdade, como expliquei neste post, é muito fácil ensinar sua ave a voar até o lugar certo sempre que quiser fazer suas necessidades.

Conclusão

Sei que estes são apenas alguns dos muitos argumentos que buscam justificar o corte de asas e não tenho nenhuma intenção de reduzí-los apenas aos que tratamos aqui. Estas são apenas algumas questões que, na minha opinião, acabam reproduzindo alguns preconceitos e equívocos. Espero ter conseguido mostrar um outro ponto de vista sobre elas.

Esta conversa continua amanhã, quando falaremos sobre a importância do vôo para os psitacídeos de estimação.

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Você também pode ajudar a deixar esta conversa ainda mais completa, enviando suas principais dúvidas sobre voo na área de comentários abaixo.

  • André Mortari

    Muito bom o post! Acho o assunto extremamente pertinente e, a falta de informação geralmente acaba trazendo decisões erradas para as pessoas no trato e convivência com as aves.

    Eu mesmo me identifico muito com as duas situações, tenho uma Amazona Aestiva que está comigo há 7 anos e, quando peguei ela como filhote, estava com as asas cortadas. Infelizmente a Sophia nunca aprendeu a voar, mesmo depois que as asas cresceram, ela nunca recuperou a confiança no voo e sinto que hoje alguns problemas de comportamento, como você citou acima são em virtude disso. Ela, as vezes está comigo e, parece que quando quer ir para outro lugar tem que me bicar e, infelizmente é muito difícil saber quando ela quer vir comigo, já que ela não voa.

    Por outro lado, tenho uma Congo que está comigo há pouco mais de 4 meses, e quando peguei filhote tomei a decisão de não cortar as penas. Confesso que achei extremamente acertada, porque o nível de interação dela comigo é muito diferente. Quando ela quer brincar ou carinho, ela simplesmente voa na minha direção, quando não quer, ela apenas sai.

    Estou tentando fazer a Sophia aprender a voar, mas já percebi que será uma tarefa bem difícil. Se pudesse voltar atrás, teria encorajado o voo sem dúvida. Hoje percebo que voando ou não a responsabilidade pelo bem estar e segurança da ave é muito mais nossa do que qualquer outra coisa.

    • Francisco

      Muito bom, André! Obrigado por compartilhar sua percepção e sua experiência.

      Pra mim, também é muito nítido como a possibilidade de voar e decidir o que quer fazer faz muita diferença no bem-estar deles.

      Na quinta-feira, vamos falar sobre como estimular sua ave a voar. Quem sabe tem alguma dica que pode ajudar a Sophia.

  • Tania

    Alo moro no Canadá e tenho 2 conure a macho et fêmea. Eles ficam em casa , soltos. Tenho precauções para tentar evitar acidentes. O macho já veio c as asas cortadas o que eu descobri somente depois da aquisição. Eu queria saber se as plumas das asas cortadas voltariam a crescer? Ele eh mais estressado q a fêmea que voa por td e não tem as asas cortadas.
    Mto obrigada

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