Por que os papagaios falam?

Por que os papagaios falam?

“Ele fala?” Esta, sem dúvida, é uma das perguntas mais ouvidas por qualquer pessoa que tenha um papagaio (Como expliquei aqui, eu gosto de chamar de papagaio todos os tipos de psitacídeos: araras, cacatuas, calopsitas, agapornis, jandais, loris, marianinhas etc.).

Realmente, a capacidade de falar é uma das características mais fascinantes e divertidas dos psitacídeos e uma das principais razões pelas quais as pessoas os adotam como pets – especialmente na escolha do primeiro, quando ainda não conhecemos todas as outras faces destes animais tão companheiros e apaixonantes.

Mas você já parou pra pensar por que os papagaios falam? Como eles aprendem a falar e imitar sons? Por que eles desenvolveram esta capacidade? Qual a utilidade dela na natureza?

Eu adoro este tema! Em primeiro lugar porque o conhecimento do comportamento de nossas aves na natureza ajuda a compreender e interagir melhor com elas. Além disto, a gente começa a pesquisar e acaba descobrindo um monte de fatos inacreditáveis sobre estes animais que nunca deixam de nos surpreender.

E olha que as pesquisas científicas sobre estes temas ainda estão engatinhando e têm muito a explorar.

Conforme veremos neste artigo, a observação das aves na natureza confirmou que elas utilizam os sons para se comunicar e que isto lhes permite desenvolver uma complexa rede social.

Isto significa que, em cativeiro, ao aprender um pouquinho do nosso idioma elas podem estar querendo se comunicar melhor conosco. Mesmo que seja apenas para dizer que desejam a nossa atenção.

Por que os papagaios falam? Comunicação para a Integração social

Até pouco tempo atrás, acreditou-se que os psitacídeos tinham mera capacidade de repetir sons, sem qualquer significado. Há até um verbo meio pejorativo em português para isso: papagaiar.

Ainda que os donos de papagaios percebessem que seus animais utilizavam linguagem humana para se comunicar, seus relatos eram tidos como coincidência, crendice ou superstição.

Nas últimas décadas, muitos cientistas das mais variadas especialidades se dedicaram a estudar os psitacídeos e outras aves e descobrimos muito sobre a capacidade de comunicação verbal deles e até mesmo sobre a sua capacidade cognitiva.

Dra. Irene Pepperberg e Alex

As informações de que dispomos hoje são fruto tanto da observação das aves em seu habitat natural, quanto de estudos realizados em laboratório. Neste último caso, devemos muito ao revolucionário trabalho da Dra. Irene Pepperberg com o genial Alex, que merecerão um post especial em breve (Clique aqui e inscreva-se na nossa lista de e-mails para não perder).

Psitacídeos, como nós, desenvolveram a capacidade de vocalizar para se comunicar. Imitar sons, associá-los a determinados significados (inclusive abstratos) e utilizá-los para se comunicar com outros indivíduos é uma característica inerente à maioria de espécies de psitacídeos. Trata-se de um comportamento complexo e ainda pouco conhecido, mas sabe-se que seu repertório de vocalizações é muito maior do que podemos imaginar ou seríamos capazes de compreender.

É difícil descrever com precisão o que e porque os psitacídeos “falam”, mas uma das hipóteses mais promissoras é que a capacidade de imitar sons seja utilizada para construir e manter coesão social. A longevidade dos psitacídeos depende, em grande parte, do bom funcionamento de grupos sociais complexos, em que a comunicação torna-se essencial.

Um papagaio sozinho na natureza tem pouquíssimas chances de sobreviver. Não há como procurar comida, cuidar dos filhotes e ficar de olho nos predadores ao mesmo tempo. Em um bando, é possível dividir as responsabilidades.

Isto cria uma tendência natural de se adaptar ao grupo, seja entre outros papagaios, seja entre humanos.

Por isso, quando integramos papagaios em um ambiente doméstico, eles tendem a se integrar, como se as pessoas e outras aves fossem os membros de seu bando.

A utilização dos sons na comunicação

Papagaios dispõem de muitos recursos e ferramentas para se comunicar, especialmente através da linguagem corporal. Através do movimento do corpo, da forma de olhar e até da posição das penas, eles são capazes de expressar pensamentos e emoções, incluindo medo, raiva, alegria, nojo, surpresa, tristeza etc.

Não é necessário muito tempo de convivência para compreendermos exatamente o que eles tem a nos dizer, apenas com um olhar.

A comunicação através de sons, por outro lado, permite uma comunicação instantânea, mesmo à distância, sem a necessidade de contato visual com o destinatário da mensagem. Isto é essencial para alertar sobre a aproximação de perigos, como predadores, para coordenar o voo em bando, entre outras coisas.

O que os papagaios falam?

Papagaios têm um nome

Estudos recentes com algumas espécies de psitacídeos revelaram que, na natureza, cada indivíduo tem o seu próprio nome, ensinado pelos pais (Fonte). Um chamado único e exclusivo que, não apenas distingue a ave individualmente, como também comunica o seu gênero, seu parceiro e o grupo ao qual pertence.

Eles aprendem seus nomes enquanto ainda estão no ninho – provavelmente entre a 2ª e a 6ª semanas de vida –, ao ouvir os pais utilizando os nomes uns dos outros e chamando-os – e a seus irmãos – por nomes que soam parecido, mas não idêntico, aos dos pais.

Este “nome” permite a comunicação direta entre dois indivíduos do bando. De fato, diversas espécies de psitacídeos já estudadas demonstram a habilidade de imitar prontamente os chamados de seus companheiros de bando.

Aprender o chamado de uma outra ave e reproduzi-lo ao final do seu seria uma forma de dizer a esta ave em um galho distante que aquela mensagem é dirigida a ela. Além disso, a ave irá reproduzir o próprio chamado para que o destinatário da mensagem saiba quem está “falando”.

É fácil visualizar a importância desta habilidade para os psitacídeos. Basta pensar naquele almoço de domingo, todo mundo gritando junto. Imagina como seria difícil pedir para sua prima passar o pão, se você não soubesse o nome dela e ela não conhecesse a sua voz! Num bando de papagaios, todo dia é almoço de domingo.

Para nós, loucos por pássaros, saber disto reforça a importância de dar um nome para nossas aves e ensinar para elas o quanto antes. Isto também implica que, ante à necessidade de realojar, vender ou doar uma ave, devemos fazer o possível para manter o mesmo nome, respeitando a individualidade do animal.

O “Papagaiês”. Usos da comunicação verbal

Nós ainda não chegamos nem perto de decifrar o “papagaiês”. Espécies diferentes de papagaios – e às vezes até diferentes grupos da mesma espécie – têm o seu próprio “idioma” ou “dialeto”, ou seja, um determinado conjunto de sons compartilhado entre os indivíduos do grupo, que lhe permite comunicar-se. Entre as mais de 350 espécies de papagaios existentes, menos de 20 foram investigadas em campo. (http://biosci-labs.unl.edu/avcog/research/articles/KeaCalls05.pdf).

Estes estudos observaram a existência de chamados relacionados a alimentação, contato, voo, alerta, pareamento, congregação social, entre outros. O “vocabulário” dos papagaios, de acordo com a espécie, incluiria entre 60 e 500 “palavras”, ou conceitos.

A observação da natureza ajuda a interpretar o comportamento dos nossos pets.

Já observou como eles costumam vocalizar bastante na hora em que o Sol nasce e se põe? Isto ocorre, pois é comum a formação de grandes bandos que se reúnem em um determinado lugar para passar a noite, mas se separam em grupos menores ao amanhecer para sair em buscar comida. Estas vocalizações ao amanhecer e anoitecer seriam, portanto, a forma de fazer contato com o bando antes de partir e ao retornar. Uma espécie de “Tá todo mundo aí? Todo mundo bem?”.

Papagaio-da-nova-zelândia

À medida que se observam os animais na natureza e a forma em que se comunicam, afloram exemplos inusitados e fascinantes de uma organização social muito complexa. Pesquisadores observaram (Fonte), por exemplo, que o papagaio-da-nova-zelândia (Nestor notabilis), utiliza chamados de contato para localizar grupos da mesma espécie e congregá-los em atividades sociais.

Em um outro estudo, Jack Bradburry e sua equipe, descobriram que psitacídeos às vezes chamam outros bandos que estão passando, para alertá-los de que encontraram comida. O surpreendente é que eles escolhem avisar ou não os outros bandos não apenas de acordo com a disponibilidade de comida para todos, mas também conforme o grupo que está passando. Ou seja, avisam os grupos de quem eles gostam, mas evitam outros grupos de quem eles não gostam.

Idiomas e Dialetos

Sabe-se que cada espécie de psitacídeo possui o seu próprio “idioma”. Eles aprendem esta “linguagem” à medida que crescem e estas “tradições orais” são transmitidas geração a geração.

Também já se observou a existência de dialetos utilizados por aves da mesma espécie, de acordo com as regiões em que vivem e os bandos a que pertencem (Fonte).

O vocabulário de populações da mesma espécie que perdem o contato por muito tempo, tendem a seguir caminhos distintos, diferenciando-se tanto a ponto de formar um tipo de “dialeto”.

A utilização destes dialetos permitiria a formação e manutenção de sistemas de bando, diferenciando-os dos demais que habitam outras regiões. Nas fronteiras entre estas regiões, os cientistas identificaram indivíduos bilíngues, capazes de se comunicar em ambos os dialetos. Esta habilidade maximizaria sua aceitação entre diversos grupos locais, multiplicando suas possibilidades de encontrar comida, abrigo, oportunidades de socialização, pareamento e acasalamento.

Os indivíduos jovens já formados e autônomos tendem a abandonar o bando de seus pais para procurar um par em outro bando, fase chamada de dispersão. Neste momento, o aprendizado dos chamados do novo grupo é essencial para que se obtenha acesso a alimentação, abrigo, pareamento e reprodução.

Em qualquer fase da vida, quando um indivíduo migra ou muda de bando, ele precisa aprender os chamados do bando local, para que possa estabelecer um vínculo social com estas aves (Fonte).

Há evidências de que o bando de destino também pode aprender com novos indivíduos. Na Australia, por exemplo (veja aqui), muitas pessoas se surpreenderam ao encontrar em seus jardins bandos de cacatuas livres que pronunciavam palavras em inglês. Provavelmente, aves de estimação que se perderam e incorporaram-se ao bando ensinaram estas palavras para as demais.

Há fortes indícios da existência de uma rede de comunicação entre bandos de diferentes espécies. Isto significaria que as aves não apenas são capazes de aprender chamados de outras espécies (aqui e aqui), como utilizam este aprendizado para se comunicarem com outras espécies habitantes da mesma região (aqui e aqui).

De fato, existem, na natureza, bandos integrados por mais de uma espécie. Há, inclusive, pareamento entre aves de espécies diferentes. A ultima ararinha-azul livre, por exemplo, estava pareada com uma arara maracanã (Fonte). Parece razoável supor que eles sejam capazes de se comunicar de alguma forma.

Parece bastante claro que, para os psitacídeos a comunicação é aprendida – uma construção cultural – e não mera manifestação de um comportamento instintivo. Imagina-se que as populações regionais se adaptem culturalmente para a sobrevivência no local em que vivem, formando uma base de conhecimento transmitida verticalmente, a cada geração, através do aprendizado.

Além da linguagem, este conhecimento inclui técnicas de sobrevivência, locais em que podem encontrar alimentos em cada período do ano, construir seus ninhos etc.

Da floresta para as nossas casas

A observação do comportamento dos papagaios na natureza nos demonstra sua capacidade de aprender novas formas de se comunicar ao longo da vida, além da grande importância desta no processo de socialização.

Em razão de sua grande necessidade de socialização e facilidade de adaptação, quando integrados ao ambiente doméstico – provenientes de criadores legalmente constituídos e preferencialmente ainda jovens –, os papagaios tendem a se reconhecer rapidamente como parte do nosso grupo social. Em outras palavras, nós somos o seu bando.

Consequentemente, ele irá procurar aprender e se adaptar às regras da casa e à maneira em que seus membros interagem e se comunicam. É assim que nossas aves acabam aprendendo um pouco da nossa língua e, eventualmente, utilizando-a para se comunicar conosco. Esta tarefa não deve ser nada fácil. Imagine você tendo que aprender a língua deles!

Este aprendizado acontece por associação. Ou seja, observando que um determinado som, está sempre associado à presença de uma determinada coisa ou de um acontecimento.

Papagaios aprendem facilmente palavras associadas a determinado evento que acontece habitualmente: saudações quando chega alguém; “alô” quando toca o telefone; “até logo” quando alguém se despede etc.

As primeiras palavras que a Lorenza aprendeu, por exemplo, foram “Tudo bem aí?”. Sem perceber, eu dizia isto todas as manhã quando abria a gaiola ou quando voltava para casa. Hoje, toda vez que entro na sala, sou saudado com um “Fran, tudo bem aí?”.

Também é comum aprenderem o nome dos alimentos preferidos e que são oferecidos com alguma frequência.

Se você deseja que seu papagaio desenvolva a habilidade de se comunicar através da fala – não somente papagaiar, sem parar –, estimule-o constante e consistentemente, dentro de um contexto social, facilitando sua tarefa de associar palavras a objetos e situações. Conforme for adquirindo um “vocabulário”, ele poderá utilizá-lo com significado correto, inclusive para te dizer o que deseja (determinado alimento, por exemplo).

Na falta de contexto, muitos papagaios acabam pinçando alguma palavra ou frase. Eles percebem que, repetindo determinado som, conseguem a atenção das pessoas da casa e passam a vocalizar com este objetivo.

Meu papagaio vai falar?

Nem todo papagaio mantido em cativeiro desenvolve a habilidade de “falar”. Ou seja, não é uma boa ideia adquirir um animal se seu único interesse for este (falamos aqui sobre isto).

Isto também significa que não há motivo para frustração se você já tem uma ave e ela não fala. Se este é seu caso, tenho certeza que, com a convivência, você já percebeu que falar é apenas uma das tantas outras características que tornam os psitacídeos pets tão legais.

Há muitos motivos possíveis para que um psitacídeo não aprenda frases e palavras na nossa língua e ainda sabemos muito pouco sobre eles. Alguns deles são que: há espécies que têm maior aptidão para aprender a falar; a ave pode não estar completamente à vontade com o ambiente, com as pessoas (ou alguma pessoa) da família; pode estar se sentindo ameaçada por algum objeto, por outras aves ou por animais de outras espécies, etc.

Há aves que só falam quando não tem ninguém por perto. Pode ser que sua ave seja perfeitamente capaz de falar, tenha inclusive aprendido algumas coisas, mas simplesmente não se sinta motivada a falar.

É provável que a falta de estímulos adequados nas primeiras semanas de vida de cada ave tenha uma grande influência na probabilidade de a ave desenvolver a habilidade de falar. Aves adultas podem continuar a aprender novas vocalizações durante toda a vida, se corretamente estimuladas e motivadas. No entanto, esta capacidade talvez seja limitada se, durante um determinado período sensível, ela não puder desenvolver as habilidades necessárias.

Nesta complicada equação, alguns fatores podem ser ajustados, mas há outros sobre os quais não temos controle.

Isto não quer dizer que a gente deva desistir e parar de estimulá-las. Em primeiro lugar, porque nunca se sabe quando virá a primeira palavra – de repente, eles começam a falar.

Mais importante que isto é que, ainda que sua ave nunca diga um “a”, estímulos de qualquer tipo para que nossas aves aprendam coisas novas são sempre positivos, aumentam a qualidade de nossas interações com elas e têm o potencial de melhorar o seu bem-estar. Desde que os estímulos não sejam estressantes para o animal, não tem porque não tentar.

Converse sempre com eles. Explique o que está fazendo ou irá fazer, repita o nome dos alimentos e objetos que oferecer para eles, explique o que é e para o que serve.

Mesmo que nunca fale, é muito provável que em algum momento ele passe a compreender – ao menos um pouco – o que você está dizendo, melhorando substancialmente a sua comunicação e o vínculo entre vocês.

Lembre-se que, na natureza, psitacídeos são presas e sua sobrevivência exige que estejam permanentemente em alerta. Em casa, a forma como nos comportamos pode acabar sendo percebida como uma ameaça.

Assim, a possibilidade de nos entender melhor e antecipar o que iremos fazer pode aumentar o conforto da ave com o ambiente doméstico e com nossa presença, contribuindo muito para o seu bem-estar.

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